Crise migratória testa Espanha e alimenta avanço da extrema-direita

Ao menos 19 migrantes morreram e cerca de 50 mil entraram em Ceuta; crise pressiona Sánchez e mobiliza governos europeus

Ao menos 19 migrantes morreram e ao menos 50 mil cruzaram a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta desde quinta-feira (30), na maior onda migratória já registrada na região.

Enquanto Espanha e Marrocos reforçam a fronteira e iniciam deportações, a crise já mobiliza governos europeus e fortalece o discurso da extrema direita contra a política migratória do primeiro-ministro Pedro Sánchez.

O governo espanhol e as autoridades marroquinas intensificaram nesta sexta-feira (31) o controle da fronteira para conter novas travessias.

Segundo dados divulgados pelo Departamento de Segurança Nacional da Espanha com base em informações do Ministério do Interior, mais de 49 mil pessoas cruzaram irregularmente a fronteira em 24 horas, embora o comunicado tenha sido retirado do ar posteriormente e o governo ainda não tenha divulgado um número oficial.

Em visita a Ceuta, Pedro Sánchez classificou o episódio como “inédito” e afirmou que a prioridade do governo é “recuperar a normalidade, garantir a segurança e não colocar em risco a convivência”.

O premiê também definiu a entrada em massa de migrantes como “um ataque à integridade territorial” da Espanha e disse ter solicitado ao governo marroquino uma resposta “mais contundente” para impedir novas travessias.

Sánchez voltou a atribuir o aumento das chegadas à atuação das redes de tráfico de pessoas e à interpretação feita por essas organizações de uma recente decisão do Supremo Tribunal espanhol que restringiu as devoluções imediatas de migrantes interceptados no mar.

Segundo o presidente, essa interpretação “correu como pólvora” entre potenciais migrantes.

A visita do premiê, porém, foi marcada por protestos de moradores de Ceuta, que vaiaram a comitiva e cobraram medidas mais duras para controlar a fronteira.

O ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, afirmou que a decisão do Supremo pode ter contribuído para a explosão do fluxo migratório, mas ressaltou que o governo continuará realizando as repatriações “respeitando as decisões judiciais e os direitos dos migrantes”.

Já o ministério do Interior ampliou o envio de policiais e militares para a cidade e iniciou os procedimentos para acelerar as deportações.

Embora episódios de pressão migratória façam parte da realidade de Ceuta e Melilla há décadas, a dimensão desta nova onda levou o tema ao centro da disputa política na Espanha e ampliou sua repercussão em outros países europeus.

Na Espanha, o líder do Vox, partido de extrema direita do país, Santiago Abascal, classificou a chegada dos migrantes como uma “invasão” e responsabilizou o governo socialista.

O líder do Partido Popular, a direita tradicional que começa a se alinhar a extrema direita, Alberto Núñez Feijóo, afirmou que o país enfrenta uma “crise de segurança nacional” e cobrou uma resposta mais firme do Executivo.

A repercussão também atravessou as fronteiras espanholas. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ameaçou defender a suspensão da Espanha do espaço Schengen — o acordo que permite a livre circulação de pessoas entre a maioria dos países da União Europeia, sem controle de passaporte nas fronteiras internas.

A proposta foi apoiada pelo ministro do Interior da Finlândia.

Na França, o governo anunciou o reforço dos controles na fronteira com a Espanha, e Marine Le Pen defendeu restrições à livre circulação caso vença as eleições presidenciais do próximo ano.

Na Alemanha, a líder da AfD, Alice Weidel, afirmou que o país não pode repetir a crise migratória de 2015 e alertou que os novos fluxos poderão ter a Alemanha como principal destino.

O episódio ocorre em um momento de desgaste político para Sánchez e recoloca a imigração no centro da disputa política europeia.

Dez anos após a crise migratória de 2015, partidos da extrema direita voltam a explorar a insegurança provocada por grandes fluxos de refugiados e migrantes para defender o endurecimento das políticas de fronteira e ampliar sua influência eleitoral.

Por Lucas Toth

Fonte
Vermelho

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