Pelo 18º ano, Brasil é o país que mais mata pessoas trans
Mesmo com queda de 34% nos assassinatos em 2025, relatório alerta que a violência transfóbica permanece estrutural e desafia políticas de proteção e inclusão já em curso no país
O Brasil voltou a figurar, em 2025, como o país que mais mata pessoas trans no mundo pelo 18º ano consecutivo. Segundo o Dossiê Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), ao menos 80 pessoas foram assassinadas em crimes motivados por transfobia ao longo do ano. O relatório será apresentado oficialmente nesta segunda-feira (26) ao governo federal, em cerimônia no Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, em Brasília.
Embora o total represente uma redução de 34% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 122 mortes, a Antra alerta que o dado isolado não reflete uma melhora real das condições de vida da população trans. O alerta é reforçado pelo aumento das tentativas de homicídio, que passaram de 57 para 75 em um ano, sinalizando a continuidade da violência cotidiana. Para a presidenta da entidade e autora do dossiê, Bruna Benevides, o patamar segue alarmante. “É revoltante termos 80 pessoas assassinadas por serem quem são”, afirma.
Tentativas de homicídio revelam continuidade da violência
O diagnóstico de permanência da violência é reforçado pelo aumento das tentativas de homicídio. Para a Antra, esse crescimento demonstra que a redução no número de mortes consumadas pode estar relacionada a fatores circunstanciais, e não a políticas públicas eficazes ou mudanças estruturais no enfrentamento da transfobia.
“O aumento das tentativas mostra que a violência segue ativa, contínua e cotidiana. Não há o que comemorar”, aponta o relatório.
O levantamento reafirma um padrão histórico: as principais vítimas são travestis e mulheres trans, majoritariamente jovens, entre 18 e 35 anos, negras e periféricas. A violência permanece concentrada no Nordeste, com destaque para Ceará e Bahia, além de São Paulo no Sudeste. Ceará e Minas Gerais lideram o ranking estadual, com oito assassinatos cada, seguidos por Bahia e Pernambuco, com sete. Goiás e Mato Grosso registraram cinco casos, enquanto Paraíba, Rio Grande do Norte, Paraná e São Paulo tiveram quatro ocorrências cada. O Distrito Federal contabilizou dois assassinatos.
A maioria dos crimes ocorre em espaços públicos, vias urbanas e regiões periféricas, evidenciando a vulnerabilidade social da população trans. A exclusão do mercado formal de trabalho, o abandono escolar forçado e a precarização das condições de vida empurram muitas dessas pessoas para contextos de maior exposição à violência.
Políticas públicas e avanços institucionais
Nos últimos anos, o governo federal retomou e ampliou políticas públicas voltadas à promoção dos direitos da população LGBTQIA+, com destaque para pessoas trans. Entre as iniciativas estão o fortalecimento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a reativação de conselhos e comissões de participação social, a ampliação do acesso à saúde integral pelo SUS e ações voltadas à educação inclusiva e à empregabilidade.
O dossiê da Antra reconhece a importância de iniciativas institucionais e propõe seu aprofundamento, com foco na consolidação de políticas nacionais de enfrentamento à transfobia, na produção sistemática de dados oficiais e na formação continuada de agentes públicos em direitos humanos.
Violência estrutural, racismo e omissão
Para a Antra, os dados refletem uma violência estrutural atravessada por transfobia, racismo, machismo e desigualdade social. O dossiê aponta como fatores centrais a falta de dados oficiais sistematizados, a subnotificação dos crimes e a desconfiança histórica da comunidade trans em relação às instituições de segurança e Justiça.
Especialistas em direitos humanos observam que o cenário brasileiro também dialoga com o avanço de discursos conservadores, fundamentalistas e de extrema direita, que reforçam a estigmatização e a violência simbólica contra identidades dissidentes, frequentemente convertidas em agressões físicas e assassinatos.
Impunidade e apagamento dos crimes de ódio
Outro elemento central apontado pelo dossiê é a impunidade. Investigações lentas, falhas na tipificação adequada dos crimes e ausência de dados oficiais dificultam a responsabilização dos agressores. Em muitos casos, os assassinatos não são registrados como crimes de ódio ou transfobia, o que apaga o caráter político da violência.
“A subnotificação é um problema gravíssimo. Sem dados, não há políticas públicas. Sem políticas, a violência se perpetua”, destaca o relatório.
Recomendações para romper o ciclo de violência
Além do diagnóstico, o dossiê apresenta recomendações ao poder público, ao sistema de Justiça e às forças de segurança. Entre as propostas estão a criação de um sistema nacional de monitoramento da violência contra pessoas trans, a formação continuada de agentes públicos em direitos humanos, o fortalecimento da educação inclusiva, a ampliação do acesso à saúde integral e políticas de empregabilidade voltadas à população trans.
Para a Antra, enfrentar o problema exige mais do que punição aos crimes. “Não se trata apenas de punir, mas de garantir dignidade, cidadania e condições reais de existência. Enquanto pessoas trans continuarem sendo empurradas para a margem, o Brasil seguirá liderando esse ranking da vergonha”, afirma Bruna Benevides.
A entidade ressalta que enfrentar a violência exige ir além da punição dos crimes, garantindo cidadania, dignidade e condições reais de existência para pessoas trans em todo o país.
Um desafio permanente para a sociedade brasileira
Mesmo com avanços institucionais e políticas públicas em curso, os dados de 2025 mostram que a violência transfóbica permanece como um dos maiores desafios em direitos humanos no Brasil e o país permanece como epicentro global da violência contra pessoas trans. O dossiê da Antra reafirma que a redução sustentável das mortes depende da continuidade e do fortalecimento de ações estatais articuladas com a sociedade civil, capazes de enfrentar as raízes históricas da exclusão e da discriminação.




