Planalto descarta ação direta dos EUA contra Lula, mas prevê pressão até as eleições
Governo avalia que Trump evitará medida de força contra Lula, mas vê risco de pressão política e interferência nas redes antes das eleições
247 – O Palácio do Planalto não considera provável uma ação direta ou uma “medida de força” dos Estados Unidos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora integrantes do governo brasileiro avaliem que a pressão de Washington deverá continuar até as eleições de outubro. Entre as preocupações está uma possível tentativa de influenciar o ambiente eleitoral por meio das redes sociais. As avaliações foram relatadas pela jornalista Daniela Lima, do UOL, nesta terça-feira (11).
Auxiliares de Lula atribuem ao atual cenário de deterioração política uma postagem feita por um parlamentar republicano dos Estados Unidos com uma montagem na qual o presidente brasileiro aparece preso por americanos.
“O Lula não é o Maduro”, afirmou um auxiliar direto do presidente que atua na área internacional.
A declaração sintetiza a leitura feita no Planalto de que, apesar do agravamento das tensões com o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não haveria perspectiva de uma iniciativa drástica contra Lula.
Planalto acompanha movimentos de Trump
O governo brasileiro, contudo, continua acompanhando atentamente as movimentações da Casa Branca. A avaliação é que a ausência de risco de uma ação direta não significa uma redução da pressão política e econômica exercida sobre o Brasil.
Nesse cenário, integrantes do Planalto consideram praticamente inexistentes as possibilidades de uma renegociação do chamado “tarifaço” antes das eleições brasileiras de outubro. A percepção se estenderia inclusive às iniciativas conduzidas no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Ao mesmo tempo, Lula recebeu nas últimas semanas manifestações de aproximação de dois importantes atores internacionais que mantêm relações de antagonismo e competição com Washington.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, conversou por telefone com Lula e enviou ao Brasil um de seus assessores de alto escalão da área militar para tratar de cooperação envolvendo a indústria bélica naval brasileira.
O presidente da China, Xi Jinping, também manteve contato telefônico com Lula e reafirmou parcerias comerciais consideradas estratégicas entre Brasil e China.
Dentro da diplomacia, esses movimentos ganham relevância adicional diante das dificuldades enfrentadas atualmente na relação entre Brasília e o governo Trump. Os contatos mostram que o Planalto procura preservar e aprofundar canais com outras potências enquanto administra o período de tensão com Washington.
Governo teme pressão sobre eleição de outubro
Embora não enxergue uma ameaça direta à integridade de Lula, o Planalto trabalha com a possibilidade de que atores ligados ao campo político de Trump tentem exercer influência sobre a disputa presidencial brasileira.
Um dos focos de atenção está nas redes sociais. Auxiliares presidenciais avaliam que essas plataformas podem ser utilizadas para interferir no debate político brasileiro e influenciar a opinião pública durante a campanha.
A publicação envolvendo uma montagem de Lula preso foi interpretada nesse contexto. Para integrantes do governo, o episódio reflete o grau de deterioração alcançado pelo ambiente político e pelas relações entre setores ligados aos dois países.
Milei é visto de maneira diferente pelo Planalto
A análise feita por auxiliares de Lula sobre o presidente argentino, Javier Milei, é distinta. Apesar da proximidade política do argentino com o campo adversário do petista, integrantes do governo brasileiro avaliam que sua participação no debate eleitoral pode acabar favorecendo Lula politicamente.
Na interpretação apresentada ao UOL, Milei teria pouca capacidade de conquistar eleitores brasileiros moderados ou de centro para a oposição. Sua presença ao lado do campo de Flávio Bolsonaro, segundo essa leitura, poderia ainda contribuir para associar esse grupo a posições consideradas extremistas pelos governistas.
O Planalto também não identifica capacidade de Milei provocar danos econômicos significativos ao Brasil. Um dos motivos apontados é a importância brasileira para a própria economia argentina, já que o Brasil figura entre os principais parceiros comerciais do país vizinho.
Um auxiliar de Lula resumiu a avaliação: “Para nós, ter o Milei do lado de lá não é ruim. No fundo, ele não está preocupado com o Flávio, mas com a própria reeleição. Ele sabe o efeito sistêmico que uma vitória do Lula teria na América Latina e na Argentina, onde a oposição segue com laços bem fortes com a população”





