A Rosa do Povo, 81 anos – o livro que não envelheceu
A dica cultural desta semana é A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, obra publicada originalmente em 1945 que completa 81 anos em 2026 sem ter perdido um só fio da sua potência.
O ano de 1945 foi um ponto de inflexão. O Estado Novo de Vargas chegava ao fim, a Segunda Guerra Mundial se encerrava, e o Brasil ensaiava os primeiros passos de uma redemocratização que traria novas esperanças, mas também incertezas. Era tempo de reconstrução, em que as pessoas comuns começavam a reivindicar presença e voz na vida pública.
Foi nesse caldo de fervura social e política que Carlos Drummond de Andrade lançou A Rosa do Povo, pela Editora José Olympio. O livro reúne poemas escritos entre 1943 e 1945, período em que o autor vivia no Rio de Janeiro e trabalhava como funcionário público. É um mergulho na condição humana sob o peso da história: fala da cidade, da guerra, da burocracia, da solidariedade entre as pessoas comuns, da recusa à opressão e da possibilidade, sempre tensa, de um mundo mais justo.
O livro abre com “Consideração do Poema”, e já na primeira estrofe Drummond declara a que veio: “Estes poemas são meus. É minha terra e é ainda mais do que ela. É qualquer homem ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna em qualquer estalagem, se ainda as há. Há mortos? há mercados? há doenças? É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras, por que falsa mesquinhez me rasgaria? Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.” Não é a poesia do ornamento nem do consolo fácil. É a poesia que reclama tudo como matéria, os mortos, os mercados, as doenças, e recusa qualquer mesquinhez que a queira menor do que a vida.
São muitos os poemas que merecem atenção, mas aqui vamos destacar outros quatro. “O Medo” aborda o sentimento difuso de ameaça que paralisa e impede a ação. O medo político, o existencial, aquele que habita as pessoas mesmo quando não há ditador à porta. Em tempos de desinformação e de enfraquecimento das instituições democráticas, o poema ressoa com desconcertante atualidade: “E fomos educados para o medo. Cheiramos flores de medo. Vestimos panos de medo. De medo, vermelhos rios vadeamos.”
“Carta a Stalingrado” é uma homenagem à resistência soviética durante a guerra, mas também uma reflexão sobre a solidariedade como ato político e poético. Drummond celebra os anônimos que seguraram o front: “Saber que resistes. Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes. Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página. Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena. Saber que vigias, Stalingrado, sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida.”
“Morte do Leiteiro” é um poema que denuncia a violência urbana e a brutalidade contra um trabalhador pobre, mostrando como a literatura pode iluminar as injustiças estruturais que os noticiários registram e esquecem. A cena é brutal e delicada ao mesmo tempo: um homem, o leite derramado, o silêncio da cidade que continua: “Da garrafa estilhaçada, no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue… não sei. Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora.”
“Procura da Poesia”, o segundo poema do livro, funciona como manifesto onde Drummond afirma que a poesia está no real, nas palavras que se recusam a ser ornamento, nas dores que insistem em ter nome: “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?”
Por que ler A Rosa do Povo hoje? Porque o Brasil de 2026 continua enfrentando desafios que ecoam os de 1945: autoritarismos que se reinventam, desigualdades que se aprofundam, democracias que precisam ser reafirmadas a cada geração. E porque Drummond oferece a linguagem para nomear o que sentimos, o que vemos, o que recusamos. A poesia não é um luxo, é uma das formas mais antigas de não se render.
Publicado em nova edição em 2012 pela Companhia das Letras, A Rosa do Povo está disponível em livrarias de todo o país e em bibliotecas públicas e universitárias. Vale levá-lo para onde a vida for: a escola, o transporte, a mesa da cozinha. Drummond cabe em qualquer lugar.
Por Antônia Rangel





