Bandidos de Farda – a engrenagem criminosa da ditadura desnudada

Divulgação

O Brasil vive um momento em que o passado insiste em bater na porta. Enquanto setores políticos e militares continuam a defender a narrativa de que a ditadura instalada em 1964 foi uma “guerra necessária” contra o comunismo, documentos há décadas escondidos vêm à tona para desmontar, mais uma vez, essa versão. O documentário “Bandidos de Farda”, produção original do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), coordenado pela jornalista investigativa Juliana Dal Piva, é a mais recente contribuição para a verdade histórica sobre o período.

A investigação que deu origem ao documentário tem raízes em cerca de 15 anos de trabalho de Dal Piva sobre os crimes da ditadura militar brasileira, ela é também autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, publicado em 2025. O acervo em questão pertenceu ao coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da contrainformação do Centro de Informações do Exército (CIE) entre 1969 e 1974, que guardou ilegalmente em sua casa cerca de 3 mil páginas de documentos públicos que deveriam estar nos arquivos oficiais do Exército.

São pastas com relatórios secretos, manuais de interrogatório e tortura, registros de monitoramento político, cadernos de contabilidade clandestina e provas de crimes que o Estado brasileiro jamais investigou a fundo. O material chegou ao conhecimento do ICL Notícias por meio de entrega anônima e resultou na série investigativa publicada a partir de abril de 2026.

Os documentos mostram uma estrutura organizada, entre as revelações estão: operações de infiltração e assassinato de opositores políticos; estupros praticados por agentes do CIE, como o caso de Marilene dos Santos Mello, uma mulher sem qualquer ligação com a resistência, sequestrada e violentada em 1969; roubos sistemáticos de pertences das vítimas; e a existência da “Casa da Morte”, centro clandestino de tortura mantido em Petrópolis, onde presos políticos eram submetidos a tortura física e psicológica e, muitas vezes executados.

Os cadernos de contabilidade de Etchegoyen revelam ainda que o CIE gastou o equivalente a cerca de R$ 1 milhão em valores atuais para financiar operações ilegais de repressão entre 1969 e 1974, incluindo o pagamento de agentes infiltrados como o “cabo Anselmo”.

Um dos documentos do acervo é o manual do estágio que Cyro Etchegoyen realizou na Inglaterra, onde aprendeu técnicas de interrogatório que, na prática, eram sessões de tortura, além de métodos para construir centros clandestinos de detenção. Pouco tempo após retornar ao Brasil, Etchegoyen e outros militares colocaram esse conhecimento em prática.

A série de reportagens teve repercussão, o relator especial da ONU para Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição, Bernard Duhaime, afirmou, em entrevista à Agência Brasil, que “as revelações exigem a reabertura de investigações sobre crimes cometidos por militares brasileiros”. O documentário estreou em 17 de maio de 2026 e mobilizou quase 200 mil pessoas nas transmissões ao vivo pelo YouTube e Facebook.

Na mesma entrevista à Agência Brasil, Juliana Dal Piva explicou a escolha do título: “Os documentos mostram que havia uma estrutura organizada para cometer crimes de Estado. Não estamos falando apenas de militares cumprindo ordens burocráticas. Existia uma máquina preparada para sequestrar, torturar, matar e desaparecer com corpos. E, muitas vezes, essas operações contavam com homens treinados especificamente para agir como assassinos clandestinos”.

O documentário chega em um momento em que o Brasil testemunha novos ataques à democracia e tentativas de reescrever a história, enquanto o país não enfrentar esse passado, com verdade, justiça e responsabilização, os “bandidos de farda” continuarão a assombrar o presente.

Por Antônia Rangel

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
666filmizle.site