Brasil vai às ruas pelo fim da escala 6×1
Mobilização nacional pressiona Senado em véspera de votação da PEC
O domingo (30) foi marcado por uma onda nacional de manifestações pelo fim da escala de trabalho 6×1, regime que prevê seis dias de trabalho seguidos por um único de descanso. Os atos ocorreram em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Curitiba, Fortaleza, Natal, Belém, Goiânia e São Luís, convocados por centrais sindicais, movimentos populares e entidades estudantis, num momento decisivo da tramitação legislativa. A PEC 221/2019, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e garante dois dias de descanso remunerado sem corte salarial, está prestes a ser votada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal.
A campanha reuniu oito centrais sindicais: CTB, CUT, Força Sindical, CSB, Intersindical, NCST, UGT e Pública Central do Servidor, além do Fórum das Centrais Sindicais, das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT).

A proposta chegou ao Senado após aprovação na Câmara dos Deputados em 27 de maio de 2026. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), incluiu a matéria entre as prioridades da pauta em 14 de agosto. Na última quinta-feira (27), o relator da PEC na CCJ, senador Omar Aziz (PSD-AM), apresentou parecer favorável, mantendo o texto aprovado pela Câmara, o que descarta mudanças substanciais e evita o retorno da matéria à Casa de origem. Aziz rejeitou 12 emendas apresentadas para preservar essa condição.
Segundo o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), a votação na CCJ está prevista para a próxima quarta-feira, dia 2 de setembro. Se aprovada, a PEC segue para votação no Plenário do Senado, possivelmente ainda durante o esforço concentrado do Congresso, que se encerra em 4 de setembro. Para que uma PEC seja aprovada, são necessários três quintos dos votos dos senadores, o equivalente a 49 votos, em dois turnos de votação.

A proposta proíbe expressamente a redução salarial e estabelece, na prática, o fim da escala 6×1 ao garantir dois dias de repouso semanal. O texto aprovado pela Câmara estabelece jornada de oito horas diárias e 40 horas semanais, distribuídas em cinco dias de trabalho e dois dias de descanso, preferencialmente aos domingos, com regras de transição e possibilidades de compensação de horários por meio de acordos e convenções coletivas.
Em São Paulo, o ato foi no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista. Segundo o presidente da CUT-SP, Raimundo Suzart, a mobilização reuniu milhares de pessoas, com o setor de comércio entre os mais presentes, por ser o segmento mais afetado pela escala 6×1. O presidente da CUT, Sérgio Nobre, classificou a mobilização como histórica e informou que, a partir de segunda-feira (31), as centrais vão percorrer gabinete por gabinete no Senado, realizar atos de rua em todo o Brasil e promover panfletagens nos metrôs. Nobre defendeu que é preciso trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

A CTB marcou presença com suas entidades filiadas. O presidente da CTB, Adilson Araújo, relacionou a redução da jornada à construção de um modelo de desenvolvimento baseado na valorização do trabalho e sustentou a impossibilidade de manter a convivência com a escala 6×1. O presidente da Força Sindical, Miguel Torres, ressaltou que a luta coletiva constrói a lei e lembrou que direitos trabalhistas não foram concedidos espontaneamente, mas conquistados por mobilização e embate político. O secretário-geral da UGT, Francisco Canindé Pegado, chamou atenção para o impacto severo da 6×1 sobre as mulheres, que acumulam trabalho remunerado e trabalho doméstico.
A mobilização contou ainda com a União Nacional dos Estudantes (UNE), cuja secretária-geral, Camila Moraes, ressaltou que a erradicação da escala 6×1 se consolidou como pauta central do debate público, atingindo a juventude que precisa conciliar estudo e trabalho. Dados do IBGE citados no ato indicam que sete em cada dez universitários conciliam essas duas rotinas.
A jornada nacional teve manifestações em diferentes regiões. Em Salvador, a concentração ocorreu no Morro do Cristo, seguida de caminhada até o Farol da Barra, com participação da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e de artistas como Magary Lord, Jackson Costa, Olodum, Manno Góes e Márcia Short. No Rio de Janeiro, manifestantes se concentraram no Posto 5, em Copacabana. Em Curitiba, houve panfletagem no Largo da Ordem. Em Fortaleza, trabalhadores se concentraram na Estátua de Iracema. Em Natal, a caminhada seguiu da Ferreira Costa até o Ponto 7. Em Aracaju, a pauta foi incorporada à Parada LGBT. Em São Luís, o ato ocorreu no Largo do Carmo. Em Belém, na Praça da República. Em Goiânia, houve caminhada entre a ADUFG-Sindicato e a Praça Boaventura. Em Porto Alegre, a manifestação foi cancelada devido a fortes chuvas. Em Brasília, a mobilização está programada para os dias 1º, 2 e 3 de setembro, em frente ao Anexo II do Senado, pela Via N2.

A mobilização foi articulada em plenária virtual no dia 24 de agosto, pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, pelo Fórum das Centrais Sindicais e pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). A estratégia foi transformar o domingo (30) em Dia Nacional de Mobilização, com atos de rua em todo o país, para pressionar os senadores na semana de esforço concentrado, de 31 de agosto a 4 de setembro.
A CTB acionou a plataforma Aprova Senado, e a CUT, a plataforma Na Pressão, ambas permitindo que trabalhadores enviem mensagens a parlamentares cobrando voto favorável à PEC. O secretário-geral da CTB, Ronaldo Leite, informou que os presidentes das entidades estarão em Brasília entre 1º e 3 de setembro para reuniões com senadores e ações de pressão direta.
A pauta da redução da jornada ganhou força ao longo de 2026, com ondas sucessivas de mobilização. Em agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou, no dia 11, a necessidade de aprovação do fim da escala 6×1 e declarou prontidão para sancionar a lei. Segundo levantamentos citados pelas entidades, há ampla maioria da população favorável ao fim da escala 6×1, embora setores empresariais e parte do Congresso defendam modelos de transição mais longos.
A semana que se inicia será decisiva: se a CCJ aprovar o relatório de Omar Aziz na quarta-feira (2), a PEC pode chegar ao plenário do Senado esta semana. Para os trabalhadores que ocuparam as ruas neste domingo, o recado se sintetizou em um mote: Vota, Senado!
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