Brasil vive epidemia de endividamento e expõe choque de projetos econômicos para 2026

O Brasil enfrenta uma epidemia silenciosa, mas devastadora: a do superendividamento das famílias. Pesquisa Datafolha divulgada em abril indica que 67% dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras, e 21% estão com pagamentos em atraso. Cartão de crédito parcelado, empréstimos bancários e carnês lideram as modalidades mais problemáticas.

Outros levantamentos apontam um quadro ainda mais amplo e escancara o tamanho da crise. Em março, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) registrou que 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas, com quase 30% em situação de inadimplência – o maior patamar da série histórica.

O fenômeno ocorre mesmo em um contexto macroeconômico aparentemente favorável. O País combina taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e recorde de empregos formais. Ainda assim, a renda disponível não tem sido suficiente para equilibrar o orçamento doméstico.

Parte da explicação está no custo do crédito. Dados recentes indicam que o comprometimento da renda com dívidas atingiu cerca de 29%, o maior nível da série do Banco Central. Economistas apontam que o problema central não é apenas o volume de endividamento – mas, sobretudo, os juros elevados.

Nesta quarta-feira (29), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic. Ainda assim, o índice está em 14,50% ao ano. Com isso, os juros bancários insistem em voar na contramão da vida real e transformam dívidas comuns em trajetórias de inadimplência persistente.

Ao mesmo tempo, a expansão do acesso ao crédito, impulsionada por aplicativos e plataformas digitais, tem ampliado o chamado “endividamento por impulso”, especialmente entre famílias de menor renda. Hoje, quase metade dos inadimplentes ganha até um salário mínimo. Há brasileiros que já não conseguem pagar nem a conta de luz, nem a de água.

Renda cresce, mas não resolve o estrangulamento

Nos últimos anos, houve recomposição do poder de compra em parte da base da pirâmide. O governo federal retomou, em 2023, a política de valorização do salário mínimo (com aumentos reais atrelados tanto à inflação quanto ao crescimento do PIB). O presidente Lula também isentou de Imposto de Renda, a partir deste ano, quem ganha até R$ 5 mil por mês, além de ampliar as faixas com descontos.

Ainda assim, a distância entre renda real e custo de vida permanece elevada. Em março, o Dieese estimou que o salário mínimo necessário para cobrir despesas básicas (alimentação, moradia, saúde, transporte, educação e lazer de uma família de quatro pessoas) deveria ser de R$ 7.425,99. Hoje, o piso atual está em R$ 1.621 – ou seja, 4,6 vezes menor que o ideal.

Mesmo esse valor, porém, reflete uma trajetória de valorização e um dos maiores legados socioeconômicos das gestões progressistas: redistribuir renda e tirar milhões da pobreza com uma política pública que vincula o mínimo ao crescimento do país. Sem essa medida, adotada a partir de 2003, o mínimo estaria hoje em torno de R$ 800, evidenciando o impacto redistributivo da medida ao longo de duas décadas.

Desenrola 2.0, a tentativa de resposta

O endividamento já produz efeitos visíveis na economia real. Dados de mercado mostram queda prolongada no consumo em lojas comparáveis, mesmo com melhora em indicadores como emprego e renda. A corda não para de arrebentar.

É uma ruptura na dinâmica tradicional: crescimento econômico já não se traduz automaticamente em aumento do consumo. Em paralelo, o avanço das apostas online introduz um novo fator de pressão sobre o orçamento familiar, especialmente entre os mais pobres.

O avanço do superendividamento deve se consolidar como um dos eixos centrais da eleição presidencial de 2026 – e já se pode concluir, com todas as letras, que os projetos dos dois principais pré-candidatos são radicalmente antagônicos.

De um lado, a estratégia do atual governo combina políticas de valorização da renda, programas de renegociação de dívidas e ampliação do acesso ao crédito com mediação estatal. A lógica é atuar simultaneamente sobre renda e passivo financeiro das famílias.

Por ocasião do 1º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, Lula fará um pronunciamento em rede nacional para anunciar o Desenrola 2.0, nova modalidade do programa de renegociação de dívidas. A proposta deve incluir renegociação com descontos elevados, limite de juros em torno de 1,99% ao mês, prazos de até quatro anos, uso parcial do FGTS para quitação de débitos e mecanismos para evitar novo endividamento, como restrições ao acesso a crédito

A iniciativa também pretende alcançar um público amplo – potencialmente dezenas de milhões de famílias – e inclui discussões sobre apoio a micro e pequenas empresas. Programas anteriores tiveram impacto relevante, mas temporário, devido a fatores estruturais como juros elevados.

Numa primeira fase, o governo vai apoiar brasileiros com renda de até cinco salários mínimos que estejam com dívidas atrasadas entre 91 dias e dois anos. Eles poderão usar recursos do FGTS para quitar débitos renegociados, mas ficarão proibidos de apostar em bets — um freio de arrumação contra o vício que agrava a crise. Uma segunda proposta, ainda em estudo, beneficiará MEIs e microempresas.

Em contrapartida, o principal rival do presidente Lula nas eleições 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL), defende uma agenda econômica mais liberal, com maior ajuste fiscal, contenção de gastos obrigatórios e reformas regressivas em áreas como Previdência e legislação trabalhista

Conforme revelou a Folha de S.Paulo em 21 de abril, o plano econômico do “filho 01” é uma ressurreição do receituário fracassado de Paulo Guedes: ajuste fiscal na veia, com a tesoura apontada para os mais pobres. Uma das metas é o congelamento real dos reajustes da Previdência, desvinculando o benefício do salário mínimo. Isso significa arrochar o poder de compra de 41 milhões de aposentados e beneficiários do BPC (idosos e pessoas com deficiência), empurrando-os de volta para a linha da miséria.

Não é por acaso que especialistas comparam a proposta de Flávio Bolsonaro ao “choque” de Javier Milei na Argentina, que fez a pobreza saltar para mais de 50%. A lógica é a mesma: desindexar o salário mínimo, cortar investimentos sociais e entregar o dinheiro que circula nas mãos do povo para a ciranda financeira.

Com cerca de 80% das famílias endividadas e milhões de brasileiros em atraso, o País enfrenta uma crise que vai além das estatísticas: trata-se de um fenômeno que afeta consumo, crescimento e bem-estar social. A resposta a esse quadro, seja via políticas de renda e renegociação, seja via ajuste macroeconômico, tende a definir não apenas o debate eleitoral, mas os rumos da economia brasileira nos próximos anos.

Nessa disputa entre aliviar a corda ou apertar o nó, o perfil do presidente Lula, construtor de pontes com o povo e avesso à austeridade que mata, é o mais adequado para resgatar os brasileiros que hoje dormem pensando em como pagar o cartão de crédito. Ou, simplesmente, em como manter a luz acesa.

Andressa Schpallir

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