Crônica: “Isabel e Renan”, por Aleska Lemos

Confira abaixo a crônica de Aleska Lemos, bacharel em História pela UFRJ e blogueira, sobre o assédio e violência sofridos por mulheres em todo mundo, aqui mostrado no ambiente escolar entre adolescentes. O texto foi publicado na última edição Revista Conteúdo.

 

“O que fazer para ela me notar?”

Era meio cedo para ficar a fim de alguém. Fazia só uma semana que chegara transferido e não conhecia ninguém direito, mas a primeira impressão que ele tivera daquela colega fora muito boa. A menina parecia tímida, mas ela tinha convicções fortes e quando alguém as desafiava ela agia com muita determinação. Naquela segunda-feira em que ele chegou na escola, ela se levantou de sua carteira, segurando o papel que corria de mesa em mesa com uma caricatura humilhante de um colega e deu um belo esporro na turma. Não foi tão eloquente porque gaguejava de raiva, mas conquistou o alto conceito de Renan.

“Ah Isabel, deixa de ser chata, é só uma brincadeira!”- os colegas disseram, mas ela devolveu perguntando se eles achariam engraçado se fosse com eles.

Ela conseguira fazer a turma odiá-la, mas ele sabia que preferia mil vezes ficar sozinha do que se juntar a pessoas que praticam bullying, e foi por isso que ele fez questão de apoiá-la:

– Eu concordo com você, Isabel. Bullying não se faz.

Ela ficou vermelha, mas lhe ofereceu um sorriso lindo. Mudo, mas cristalino, e foi o que bastou para ele ficar muito a fim. O problema é que ele não sabia como falar com ela, como se aproximar, o que ela gostava e tal. Então, ele ficava só paquerando de longe, mas ela não percebia nada.

O sinal tocou interrompendo a hesitação de Renan e acabando com a chance dele. E dessa forma transcorreram os dias sem que ele soubesse como agir, e aconteceu uma coisa, outro garoto entrara no páreo: Léo era um dos caras populares da escola. O garoto era melhor amigo de Jonathan, o presidente do grêmio estudantil que Isabel participava.

“Droga, ele tem uma vantagem sobre mim. Pode estar perto dela sem precisar de desculpas…”

Só que na atitude, Léo não era melhor que Renan e Isabel percebia isso muito bem. Não fazia seu estilo gostar de cantadas vulgares e “mão boba”, era mais escorregadia que sabonete em mão molhada quando percebia o colega chegando.

Renan não estava perto o bastante para perceber o que estava acontecendo, mas quis o destino que ele tivesse uma chance de se aproximar.

-Você quer ficar perto dela? Por que não participa do grêmio!- falou Felipe, um amigo de Renan.

– Pois é, cara, como fui imbecil! Vou no banheiro e depois dou uma passada lá para ver se consigo entrar.

Despediu-se do amigo e foi cheio de esperança ao toalete. Ia assim, alegre e assobiando, quando ouviu dois colegas conversando:

-É hoje que o Léo vai se dar bem com a loirinha.

-Como você tem certeza disso, cara? Ela vive fugindo dele.

– O Léo armou para ficar sozinho com ela no grêmio.

Aquilo não caiu muito bem no estômago do Renan.

Afinal, se a menina não está afim, o cara tem que respeitar. Isso era básico, se ele tomasse coragem para falar com ela e recebesse um “não” ficaria muito “bolado”, é claro, mas se afastaria.

“Isso não está me cheirando bem.”

Correu o mais rápido que pode até o terceiro andar da escola e graças a Deus a janela estava aberta porque a porta estava trancada e a cena lá dentro era escandalosa:

Léo a prendia contra uma mesa e começava a desabotoar a calça jeans.

-Solta ela Léo!

-Cai fora, seu nerd bicha. Precisamos de privacidade.

-Eu não preciso não!-gritou Isabel tentando livrar os braços do aperto do colega de classe- Nunca quis você e não vou deixar fazer isso comigo!

Ela chutou a canela de Léo, mas tomou um tapa no rosto e se desequilibrou. Renan se colocou entre os dois e disse:

-Não é assim que um homem age. As mulheres não são brinquedo à sua disposição. Gostaria de ver uma coisa dessas acontecendo com a sua mãe ou irmã?

Léo, porém, partiu para a violência, mais uma vez, se recusando a ser racional. Isabel gritou por ajuda.

 

Parte 2

Isabel desceu do ônibus as 7:00 daquela manhã. Não havia comido direito e tremia, mesmo que aquele dia não estivesse nenhum pouco frio. O estado de suas mãos era o oposto: estavam encharcadas de suor.

Secou as mãos no jeans, numa tentativa de controlar o medo, e rezou para que não estivesse tão pálida como imaginava estar. Cruzou os braços e apertou o passo.

-Ei, Bel! Espera um pouco, quero falar com você.

A voz masculina era conhecida, mas com tanta adrenalina no corpo ela se assustou e quase tropeçou.

-Ah Renan é você? Que susto!- ela mostrou um sorriso vacilante.

-Calma, eu vou andar contigo até a escola, tudo bem?

-Sim, claro!

Na verdade se sentia muito mais aliviada na presença dele. Não eram amigos há muito tempo, mas ele fizera mais por ela em 24 horas que todos os seus amigos da escola em um ano.

-Sabe, você não precisa se preocupar com ele agora.

Foi expulso da escola ontem.

– Sim, fiquei sabendo, mas o Léo é um stalker. A Priscila contou para ele todos os meus hábitos e agora ele é a minha sombra.

-Duvido que ele apareça. O diretor ameaçou levar o caso à polícia se ele continuasse te perseguindo.

Isabel suspirou aliviada, mas antes que dissesse algo Renan continuou:

-O que eu queria te contar é que hoje a minha mãe vai vir falar na escola para as turmas sobre violência contra a mulher. Ela quer saber se você topa falar o que aconteceu com você para a escola.

-Eu… ah…acho que não consigo. Por mim isso morria comigo.

– Eu te entendo, mas você não pode se acovardar agora.

Quando você falar, outras garotas vão enxergar que passam ou passaram por situações parecidas e vão saber que a culpa não foi delas.

Eles entraram na escola. Algumas pessoas começaram a vaiar os dois, afinal Léo era popular naquela comunidade e o acontecido foi veiculado na internet, com todas as distorções arquitetadas pelo garoto. Renan abraçou Isabel e disse no ouvido dela:

-Não ligue para eles. Você sabe o que aconteceu, e sabe que não tem culpa alguma nisso.

A menina estava chorando de cabeça baixa. O apoio do colega foi muito importante naquele momento, pois nem suas amigas vieram lhe dar algum apoio.

-Eu vou falar, Renan. Acho que eu tenho o direito de contar o que aconteceu.

Então os dois foram para o auditório da escola. No palco foi abraçada pelo diretor e pela mãe do amigo e depois lhe deram um microfone. Por um tempo nada saiu da sua garganta, mas lembrou das palavras de Renan e sentiu que não tinha nada do que se envergonhar.

– Ontem, vocês ouviram muitas calúnias sobre mim. Uma pessoa me agrediu aqui na escola e o Renan me salvou antes que eu fosse violentada. Essa pessoa disse também que eu sou uma vagabunda e que não valho nada, mas a verdade é que ele me persegue desde o dia da Festa Junina. Quando me agarrou disse que eu vivia provocando-o e que tinha o prazer de dizer não ao assédio porque me sentia superior. Ele acreditava que me estuprando estaria me ensinando qual é o lugar de uma mulher. Mas eu digo a todos aqui, que mulher não é objeto e que seu lugar é o lugar onde ela quer estar. Não nascemos para servir a ninguém!

– Que provas você tem que ele fez isso? – perguntaram os amigos dele debochando.

– Tenho alguns hematomas e o testemunho do Renan.

-Do seu namoradinho?- ridicularizou o Jonathan, melhor amigo de Léo.

– Eu nunca tinha falado com o Renan até ontem, pergunta para sua namorada.

Dora, a namorada se levantou e falou:

-É verdade, Jonathan. A Isabel é tímida, ela nunca tinha ficado com um cara antes. Mas que droga hein Bel! Teu primeiro beijo foi logo assim…

Outras meninas manifestaram apoio à colega, mas a mãe de Renan cortou e disse:

– Peço que me ouçam, por um momento meninas. Isso que aconteceu com a Isabel é muito comum, infelizmente. Os homens tem mais privilégios e menos responsabilidades que as mulheres na nossa sociedade. A eles é ensinado que tudo podem e que nós estamos aqui para servi-los, porque “somos” fracas e domináveis. Então, quando uma de nós diz não, aqueles que acreditam nessa baboseira ideológica, se sentem no direto de nos tomar a força. Eu percebo que muitos aqui estavam contra Isabel, mas acredito que não saibam porque, então eu vou dizer: quando uma mulher sofre uma violência ela é culpada porque já se naturalizou que homem é bruto, animalesco, safado, egoísta e irracional. À mulher cabe ser esperta e integra. Porém, eu digo que é hora de mudar isso. Deve-se exigir que eles assumam seus atos e passem a nos enxergar como iguais e é por isso que casos como o da Isabel não devem passar em branco jamais!

Nessa hora um grupo de meninas aplaudiu e algumas histórias foram surgindo. Algumas estudantes contaram sobre assédios que sofreram e a solidariedade aconteceu. Muitas se culpavam pelo desacato sofrido por causa da roupa que usaram na época, mas a mãe de Renan foi explicando que nem a vestimenta e nem a maquiagem tinham nada a ver. No Oriente Médio, mulheres de burca eram estupradas tanto quanto no ocidente. Nada dava direito aos opressores a desrespeitarem aquelas meninas.

As palavras daquela senhora empoderaram as alunas e fez também com que os alunos daquela escola repensassem o que é ser homem de verdade. Isabel se interessou pelos estudos de gênero e fundou um coletivo de mulheres com as amigas para discutir e para que na próxima vez que fossem alvo de alguma violência pudessem sempre se apoiar.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
2026 filmleri izle