Lula defende integração e critica alinhamentos automáticos no Mercosul

Em cúpula marcada por presença de Kast e Noboa e ausência de Milei, líder brasileiro pede fortalecimento institucional do bloco

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira (30), durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Assunção, o fortalecimento institucional do bloco e criticou políticas de alinhamento automático a potências estrangeiras em um momento de avanço de governos conservadores e de extrema direita na América do Sul.

A reunião marcou a primeira participação no Mercosul dos presidentes José Antonio Kast, do Chile, e Daniel Noboa, do Equador, ambos eleitos com plataformas de direita e alinhados a setores conservadores da região. Os dois já participaram de iniciativas como o Fórum de Madri, articulação internacional ligada à direita ibero-americana.

Ao mesmo tempo, a cúpula ocorreu sem a presença do presidente argentino Javier Milei, um dos principais defensores da flexibilização das regras do bloco e crítico histórico do Mercosul. Milei permaneceu em Buenos Aires e foi representado pelo chanceler Pablo Quirno.

Sem citar diretamente nenhum dos líderes presentes ou ausentes, Lula fez uma defesa explícita da continuidade do projeto de integração regional.

“O Mercosul não pode funcionar de acordo com a eleição deste ou daquele presidente, senão a gente nunca vai ter um bloco realmente forte funcionando”, afirmou Lula ao defender que a integração sul-americana se apoie em instituições permanentes e não fique sujeita às mudanças políticas de cada país.

Para Lula, o fortalecimento institucional é condição para que o projeto de integração sobreviva às alternâncias de poder e continue sendo prioridade “independentemente do presidente a ser eleito em qualquer país do nosso bloco”.

A fala ocorre em meio às divergências sobre o futuro da união aduaneira do Mercosul.

Nos últimos meses, o governo brasileiro tem demonstrado preocupação com a defesa, por parte da Argentina de Milei, de maior flexibilização da Tarifa Externa Comum (TEC) e da ampliação de acordos bilaterais com os Estados Unidos.

Sem citar nominalmente Donald Trump ou qualquer governo da região, Lula enviou um recado contra a subordinação da política externa sul-americana a interesses externos.

“Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul”, disse. “Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes”, completou.

A fala ocorre em meio ao fortalecimento de governos alinhados à Casa Branca em países como Argentina, Chile e Equador.

Lula também defendeu a ampliação da agenda comercial do bloco e afirmou que o Mercosul precisa voltar a olhar para o mundo “com ambição”.

“Contrariamos as expectativas de quem acreditava que o Acordo com a União Europeia jamais sairia do papel. O Brasil também já ratificou o acordo com a EFTA [bloco econômico europeu formado por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça ] e com Singapura”, afirmou.

O presidente destacou ainda que o bloco avança nas negociações com Canadá, Índia e Vietnã e anunciou o lançamento das negociações para uma parceria econômica com o Japão.

“Nesta Cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma Parceria Econômica com o Japão. E em breve, queremos fazer o mesmo com a China, e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”, disse.

Para Lula, a inserção internacional do Mercosul deve ser acompanhada por políticas de desenvolvimento regional. “No entanto, não basta estar integrado às grandes cadeias de valor mundiais. O Mercosul precisa fazer diferença na vida das pessoas”, afirmou.

Lula também propôs que o Mercosul avance na criação de mecanismos regionais de resposta a desastres naturais, em referência aos terremotos que atingiram a Venezuela e às enchentes no Sul do Brasil.

“O Mercosul pode ser o embrião de um mecanismo sul-americano de enfrentamento a desastres naturais e de financiamento a medidas de adaptação climática”, afirmou.

O presidente também defendeu maior coordenação regional na transição energética e na exploração de minerais críticos, considerados essenciais para a descarbonização e para a revolução digital.

“Desenvolver cadeias regionais que incluam etapas de maior valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania”, disse.

Lula ainda afirmou que o bloco precisa agir de forma conjunta diante da “ameaça do colonialismo digital” e citou o Pix como exemplo de infraestrutura pública que poderia inspirar um sistema regional de pagamentos.

Na parte final do discurso, o presidente relacionou integração regional, democracia e segurança pública. Ele lembrou que o Mercosul nasceu como resposta ao passado autoritário do Cone Sul e afirmou que “a democracia voltou a estar ameaçada no mundo todo”.

“No Brasil, os extremistas planejaram um golpe de Estado”, disse Lula, ao defender o fortalecimento das instituições democráticas e o combate às redes de desinformação.

O presidente também pediu urgência na discussão do Pacto Regional pelo Fim da Violência contra Mulheres, proposto pelo Brasil, e defendeu maior cooperação contra o crime organizado transnacional.

“Não há democracia forte ou desenvolvimento duradouro onde o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado”, afirmou.

Ao encerrar sua intervenção, Lula voltou a defender que o Mercosul seja tratado como projeto permanente de integração, e não como política sujeita às oscilações ideológicas de cada governo. “O projeto de integração sul-americano deve estar acima de ideologias”, disse.

Por Lucas Toth

Fonte
Vermelho

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