“O 21 de abril nos tempos de hoje”, por José Geraldo Santana

Compartilhamos o artigo de autoria de José Geraldo Santana Oliveira sobre o feriado de 21 de abril, Dia de Tiradentes
por José Geraldo Santana Oliveira
Há exatos 227 anos, Tiradentes, um dos líderes da imortal inconfidência mineira, foi morto e esquartejado e sua casa queimada e salgada, o que significava morte para sempre – consoante as ordens emanadas das Ordenações Filipinas, que governavam o Brasil, desde a anexação espanhola, em 1580, e que perduraram até a independência, em 1822.
A pena de morte para sempre – a mais cruel de todas as penas da história da humanidade -, visava, além da eliminação física dos desafetos dos regimes tirânicos, tinham por objeto a excomunhão de todas as gerações deles descendente; e, o que era o seu principal objeto: a tentativa de destruir os seus ideais, quando eram mortos por esse motivo, como foi o caso de Tiradentes.
Porém, como registra Lênin, em seu livro Materialismo e Empiriocriticismo, nada neste mundo é mais difícil de ser destruído do que uma ideia, depois que se enraíza. Como se deu com a eterna bandeira da Inconfidência Mineira: “Liberta Quæ Sera Tamen”, liberdade, ainda que tardia.
Bandeira e símbolo maior da humanidade, magnificamente registrada por Cecília Meirelles, em seu transcendental poema Bandeira da Inconfidência, com estas perenes palavras:
“Liberdade – essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)
E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,
mas fica escrita a sentença”
Passados 227 anos da Inconfidência Mineira a sua bandeira acha-se solenemente desfraldada nos frontispícios da sociedade brasileira, graças à multissecular luta sem trégua, travada por aqueles (as) que beberam de seu inebriante cálice; tremulando a vento solto e que não pode ser contido, por nada e ninguém.
Se, hoje, esta bandeira é realidade, faz-se imperioso e inadiável que todos (as) quantos sinceramente cultuam a democracia e o tecido social sadio, empunhem outra, de igual importância, e sem qual a cidadania plena não passa de miragem: distante e inalcançável.
A bandeira a ser empunhada é a da decência da política e dos políticos, que, na esteira daquela da Inconfidência Mineira, pode e deve ser resumida do seguinte modo: “Decentia quæ sera tamen”, ou, decência, ainda que tardia.
Para se entender a política brasileira, urdida e costurada no Congresso Nacional, basta que se tomem emprestadas as palavras de Lima Barreto, em seu livro Numa e Ninfa (publicado em 1915, época áurea da República Velha, do coronelismo), que assim a resumiu: “A política, por esse tempo, mais do que nunca, constituía um jogo de interesses estritamente pecuniários, representados pelos proventos dos cargos e o que se arranja com auxílio deles….”
Com a sua refinada ironia, Lima Barreto, no citado livro, disse sobre a Câmara dos Deputados: “O Intransigente noticiava: ‘Ontem, na Câmara, naquele indecente valhacouto de caixeiros de oligarcas abandalhados, houve novidade….’ ”.
O vocábulo valhacouto, dentre outros, significa refúgio de malfeitores. Será que alguém, em sã consciência, pode, com convicção e sinceridade, dizer outra coisa do ano legislativo da Câmara Federal, coroado com chave de enxofre, na sessão do dia 17 de abril corrente, quando se aprovou a admissibilidade do processo de impeachment da Presidente Dilma?
Será que se pode dizer algo de diferente, de um só que seja, dos 367 votos, que, de viva voz, foram dados pela realçada admissibilidade?
Ainda que alguma dúvida houvesse, a declaração de voto do Deputado Jair Bolsonaro -, em apologia ao regime militar, à tortura e ao mais facínoras torturadores do regime militar, Coronel Brilhante Ulstra -, e a da Deputada do PSDB de Minas Gerais, Raquel Muniz, do PSD-MG, esposa do Prefeito de Montes Claros, próspero município mineiro, que, no dia seguinte, ao ser preso, por corrupção, deu provas inequívocas do que é ética e integridade moral, para ela e para os que as invocaram, para votar sim ao processo de impeachment.
Por tudo isto, que tal, em sincera homenagem a Tiradentes, aos demais inconfidentes, e à Inconfidência Mineira, içar-se, ao topo do mastro, a bandeira retro, repita-se: “Decentia quæ sera tamen”, ou, decência, ainda que tardia?
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