Venezuelanos se revoltam com continuidade de processo contra Maduro e Cilia
Presidente venezuelano e primeira-dama compareceram a uma corte estadunidense pela segunda vez após sequestro
O presidente da Venezuela Nicolás Maduro e a primeira-dama e deputada nacional, Cilia Flores, compareceram a uma corte em Nova York nesta quinta-feira (26). Essa foi segunda audiência relacionada ao caso, e, nela, o juiz Alvin Hellerstein negou o pedido da defesa para rejeitar as acusações contra o casal por falta de provas.
Nas ruas de Caracas, a população se mobilizou durante toda a manhã para acompanhar a sessão e protestar contra o que qualificam de “farsa jurídica” contra o presidente eleito do país.
Maria Linares é militante do movimento de mulheres caraquenhas e disse sentir revolta com o que qualificou de “teatro” por parte do sistema de justiça estadunidense.
“Recebemos isso com muito descontentamento. Estamos presentes aqui porque queremos a liberdade de nosso presidente Nicolás Maduro e de nossa primeira combatente Cilia Flores, que não estão presos, mas sequestrados, porque fizeram uma extração para levá-los sequestrados. O julgamento que fizeram hoje foi praticamente um teatro”, disse Linares, que participou de uma mobilização na praça Bolívar, em Caracas, para exigir a liberdade do casal presidencial.
“Fazemos um apelo ao presidente Donald Trump para que perceba que o que está fazendo está errado, porque isso viola todos os direitos internacionais de nosso presidente legalmente eleito aqui em nossa República Bolivariana da Venezuela”, afirmou.
Anaí Arismendi considera que a perseguição contra as lideranças políticas da Venezuela tem tido um efeito reverso, unificando a população em defesa da soberania de seu país.
“Eles estão muito enganados. Quem pensa que com isso vai quebrar nosso presidente, não deve confundir o conceito de paciência estratégia com fraqueza. Nós estamos em um processo de organização, de mobilização permanente e de observação do desenvolvimento das coisas, apoiando nossa presidenta encarregada Delcy Rodríguez, mas também muito atentos para não retroceder em nossas conquistas. Nós não vamos retroceder na Revolução Bolivariana”, disse Arismendi, sem deixar de reconhecer a complexidade da situação.
“Sabemos que estamos em uma situação complexa e difícil, na qual estamos ameaçados e chantageados não apenas com as medidas unilaterais, mas com ações militares que já aplicaram no dia 3 quando violaram nossa soberania. O povo venezuelano cresce na adversidade e assim a história demonstrou. Quem pensa que nós estamos simplesmente debilitados ou quebrados não conhece a história do povo venezuelano”, disse a moradora de Caracas.
Parlamento protesta
Durante a sessão ordinária da Assembleia Nacional da Venezuela desta quinta-feira, o deputado nacional José Vielma Mora lembrou que a audiência em Nova York coincide com a data em que se completam 32 anos da libertação do ex-presidente Hugo Chávez, em 1994, após passar cerca de dois anos preso.
“Há aproximadamente 32 anos as portas do presídio de Yare se abriram e o povo a chamou de presídio da dignidade. Nesse dia não saiu apenas um homem, saiu para sempre a esperança contida sob as grades da Quarta República para dar liberdade ao povo da Venezuela”, declarou o deputado.
“Há 32 anos daquele acontecimento, nossa lealdade não é um slogan vazio, é um exercício diário”, seguiu o parlamentar. “Hoje esse mesmo caminho nos coloca à prova com o presidente Nicolás Maduro Moros, enfrentando a injustiça em terras estrangeiras. Assim como Yare não pôde dobrar a vontade de Chávez e de seu povo, nenhuma cela de Nova York poderá quebrar a determinação de um povo que decidiu ser livre”, listou.
O deputado Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente Nicolás Maduro, também protestou. “Hoje a Venezuela e o mundo se levantam para elevar a voz mais poderosa que um ser humano e uma sociedade podem ter, que é a verdade. É para aproveitar o momento de hoje para elevar a voz da verdade, que nos deixem construir nosso próprio modelo em paz e nós não somos criminosos. Somos gente decente, trabalhadora, não somos criminosos como querem fazer parecer. A Venezuela está firme”, disse.
O teatro
Na audiência desta quinta, o juiz novaiorquino adiou a decisão sobre o pagamento de honorários advocatícios à defesa de Maduro. Os advogados argumentaram que o governo dos Estados Unidos impede o acesso a recursos da Venezuela para financiar o processo, o que viola o direito à legítima defesa dos acusados e, portanto, representa uma nulidade evidente do julgamento em curso.
Segundo fontes que acompanharam a sessão, o magistrado de 92 anos teria afirmado que o direito à defesa de livre escolha é primordial e chegou a questionar se as sanções contra o antigo presidente ainda fazem sentido, já que, segundo ele, Maduro e Flores não representam mais uma ameaça para a segurança nacional porque já estão presos em solo americano.
Já os promotores federais sugeriram que os acusados utilizem dinheiro próprio, ignorando a declaração de insuficiência de fundos já realizada pelos dois, ou aceitem defensores públicos pagos pelos Estados Unidos.
Maduro e Flores estão detidos em uma prisão no Brooklyn desde o dia 3 de janeiro, quando as forças estadunidenses bombardearam a Venezuela e sequestraram o casal, por ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Eles são acusados de crimes como conspiração para importar cocaína e posse de armas pesadas. No entanto, o governo estadunidense não apresentou provas de tais crimes e chegou a reconhecer a inexistência do chamado “Cartel de los Soles”, base da acusação que embasou a operação militar ilegal contra o país sul-americano.
Na primeira audiência, no dia 5 de janeiro, dois dias após a agressão militar à Venezuela e o sequestro do casal presidencial, ambos se declararam inocentes das acusações apresentadas pela justiça estadunidense e se autointitularam “prisioneiros de guerra”.
Não existe uma data definida para o início do julgamento ou para a realização de um novo encontro na justiça.





