O que o filme “Meu professor Polvo” nos ensina sobre a vida
A dica cultural desta semana nos leva a um encontro raro e profundamente humano. Em Meu Professor Polvo (My Octopus Teacher, 2020), vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2021, acompanhamos o cineasta sul-africano Craig Foster, que, ao passar por um período de esgotamento físico e emocional, retorna ao oceano de sua infância.
O ponto de partida do filme é simples, mas cheio de verdade: Foster entra no mar em um momento de esgotamento, sem um objetivo definido. É nesse retorno ao oceano que, um dia, ele se depara com uma presença incomum. Ainda sem compreender totalmente o que vê, percebe que está diante de algo extraordinário: um polvo.
É nesse processo que, aos poucos, vai se revelando uma percepção que atravessa todo o filme: “Muita gente diz que um polvo é como um alienígena, mas o estranho é que, quanto mais perto você chega, mais percebe que somos parecidos de várias maneiras. É um mundo completamente diferente. Você sente que está no limiar de algo extraordinário, mas também percebe que há um limite que não pode ser atravessado.”
Aquele encontro não termina ali. Ele volta no dia seguinte. E depois novamente. Aos poucos, surge uma inquietação que move toda a narrativa: o que acontece se eu vier todos os dias? A partir dessa pergunta, ele passa a retornar ao mesmo lugar de forma contínua, acompanhando aquele animal que, no início, mal se deixava ver.
A relação não nasce de um gesto único, mas da repetição. Da presença constante. Do cuidado em não invadir. Há um limite claro entre os dois, algo que não pode ser atravessado à força. No começo, ele se protege, se esconde, observa à distância. Aos poucos, a desconfiança diminui. A curiosidade aparece. Até que, em um momento que não pode ser antecipado nem controlado, acontece o primeiro contato.
O filme trata esse momento com a delicadeza que ele exige. Não como conquista, mas como confiança. Quando isso acontece, Foster descreve: “os limites entre ele e eu pareciam se dissolver. Só a pura magnificência dele.” É um instante breve, mas suficiente para deslocar completamente a forma como ele percebe aquele encontro.
A partir daí, o mergulho deixa de ser apenas uma tentativa de escapar do esgotamento e passa a ser uma prática diária de atenção. O corpo começa a responder. O frio, antes hostil, passa a ativar, a despertar. Como ele próprio diz, “o frio atualiza o seu cérebro… todo o seu corpo ganha vida.” Aos poucos, ele volta a sentir energia, presença e interesse pelo mundo.
Mas o filme não idealiza essa relação. Ao acompanhar a vida do polvo, também nos coloca diante do risco constante. Predadores, ataques, a vulnerabilidade de um corpo que depende de inteligência e adaptação para sobreviver e, ainda assim, uma impressionante capacidade de se refazer. Em um desses momentos, Foster se percebe afetado de forma direta, como se o que acontecesse com aquele animal também o atravessasse.
Essa experiência modifica sua forma de se relacionar com a vida. Ele passa a se sensibilizar mais, não apenas com aquele animal, mas com o ambiente como um todo. A floresta submarina deixa de ser cenário e passa a ser um sistema vivo, complexo, interligado.
Essa transformação também aparece na relação com o filho. Ao longo do tempo, Foster passa a compartilhar com ele aquilo que vive no mar, levando-o para perto dessa experiência e dividindo suas descobertas no dia a dia. Não há grandes explicações, mas uma convivência construída na observação, nos detalhes e no contato com a natureza.
Para o campo da educação, o documentário aponta algo essencial: aprender exige tempo, repetição, atenção e vínculo. Não há atalhos. É no retorno ao mesmo lugar, na observação contínua, que o conhecimento se aprofunda. Em um contexto marcado pela pressa e pela dispersão, o filme nos lembra que talvez estejamos desaprendendo a observar.
Ao final, acompanhamos o ciclo de vida do polvo. Um ciclo curto, intenso e marcado por uma entrega total à reprodução. O corpo que antes se movia com precisão passa a enfraquecer. A vida se retira aos poucos. Não há romantização. Há uma presença silenciosa diante da finitude.
É nesse momento que a experiência ganha outra dimensão. Quando Foster diz: “ela me ensinou a sentir que faço parte deste lugar, não sou apenas um visitante”, não se trata de uma reflexão distante, mas de algo vivido.
Meu Professor Polvo não oferece respostas prontas. O que ele deixa é uma sensação que reverbera por um bom tempo. O filme nos mostra que é possível se relacionar com o mundo de outra forma, com mais presença, mais cuidado e mais atenção.
Talvez seja isso que ele nos devolve: a possibilidade de reaprender a estar no mundo.
Ficha técnica
Título: My Octopus Teacher
Direção: Pippa Ehrlich e James Reed
Ano: 2020
País: África do Sul
Gênero: Documentário
Duração: 85 minutos
Onde assistir: Disponível na Netflix (assinatura).
Por Antônia Rangel



