O Brasil que se informa pelas redes e desacredita da imprensa
Pesquisa do Cetic.br revela crise estrutural de credibilidade no ecossistema informacional brasileiro
Por décadas, a imprensa ocupou um lugar central na mediação da realidade. Era pela televisão, pelo rádio ou pelo jornal impresso que o país se informava, interpretava acontecimentos e construía consensos mínimos. Hoje, esse cenário se transforma de maneira acelerada.
A pesquisa mais recente do Cetic.br revela que 48% dos brasileiros desconfiam sempre ou na maioria das vezes das informações produzidas por veículos jornalísticos. O dado expressa um processo de deslocamento da confiança, em que as plataformas digitais e os círculos pessoais passam a ocupar o lugar antes central da imprensa.
Parte dessa crise está relacionada a mudanças tecnológicas e ao avanço das redes sociais. Mas há também um componente histórico e político que não pode ser ignorado. Ao longo das últimas décadas, especialmente a partir do acirramento da polarização no país, consolidou-se entre amplos setores da sociedade a percepção de que a imprensa não é neutra e de que seus enquadramentos refletem interesses, posições e disputas.
Essa percepção contribuiu para fragilizar um dos pilares do jornalismo moderno: a confiança pública na sua capacidade de mediar a realidade com base em critérios de apuração, verificação e responsabilidade editorial, justamente os elementos que historicamente sustentaram sua legitimidade social.
A pesquisa aponta que 60% dos brasileiros acessam informações diariamente por aplicativos de mensagem, enquanto redes sociais e vídeos curtos ocupam posição central nesse novo ecossistema. Trata-se de um ambiente informacional marcado pela velocidade, pela fragmentação e pela mediação algorítmica, em que a lógica da atenção passa a prevalecer sobre a lógica da verificação.
Se o acesso se desloca, a confiança acompanha esse movimento. A credibilidade passa a se ancorar em relações de proximidade, como amigos e familiares, e não mais exclusivamente em instituições jornalísticas. Nesse contexto, o pertencimento social passa a operar como critério de validação da informação, muitas vezes sobrepondo-se à própria consistência factual da informação.
Apenas um em cada cinco usuários apresenta postura engajada na verificação de informações. Ao mesmo tempo, 34% afirmam que não vale a pena verificar se uma informação é verdadeira ou falsa. Esse dado indica não apenas um problema de acesso ou de capacidade técnica, mas uma mudança mais profunda na relação dos indivíduos com a própria ideia de verdade.
A desinformação também se distribui de forma desigual. Pessoas com menor escolaridade e menor acesso a recursos digitais enfrentam mais dificuldades para identificar conteúdos falsos, revelando uma dimensão estrutural do problema. A chamada desigualdade digital não diz respeito apenas ao acesso à internet, mas à capacidade de interpretar, avaliar e contextualizar as informações que circulam nesse ambiente.
Outro fator relevante é a compreensão limitada sobre o funcionamento das plataformas. Muitos usuários associam popularidade à veracidade, acreditando que conteúdos mais compartilhados são mais confiáveis.
Além disso, 41% dos brasileiros relatam contato diário com conteúdos manipulados, como deepfakes, o que amplia os desafios para distinguir o que é real do que é fabricado.
Há ainda um elemento econômico que atravessa essa crise. O modelo de negócios das plataformas digitais, baseado na captura da atenção e na monetização do engajamento, concentrou receitas publicitárias e reconfigurou o financiamento da informação. Esse processo não atinge apenas empresas de comunicação, mas compromete as condições de produção de conteúdo jornalístico orientado pelo interesse público, aprofundando assimetrias e fragilizando a circulação de informações verificadas na sociedade.
A crise de confiança na imprensa tem impactos diretos sobre a democracia. Sem uma base comum de fatos, o debate público se fragiliza, a construção de consensos se torna mais difícil e a população se torna mais vulnerável à desinformação, com efeitos concretos sobre decisões políticas e direitos.
Diante desse cenário, torna-se inevitável enfrentar o papel das grandes plataformas digitais e repensar o funcionamento do ecossistema informacional.
Mas, do ponto de vista das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação, esse debate também revela outro elemento central: a necessidade de fortalecer a formação crítica da sociedade. A capacidade de ler, interpretar e questionar informações é hoje parte essencial do direito à educação e da própria cidadania.
Para nós, que atuamos na organização das trabalhadoras e dos trabalhadores em educação, os dados da pesquisa não são apenas um diagnóstico sobre a comunicação, mas um alerta sobre o presente e o futuro da democracia brasileira.
Fortalecer o jornalismo comprometido com o interesse público e ampliar a educação midiática são dimensões que dialogam diretamente com a luta por direitos e pela valorização da educação, expressando nossa convicção de que a informação é um bem público — e, como tal, um elemento essencial para a democracia.
Sobre a pesquisa
A Pesquisa Painel TIC – Integridade da Informação foi conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em parceria com o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Foram entrevistados 5.250 usuários de internet de 16 anos ou mais, entre agosto e setembro de 2025.
Acesse a pesquisa completa no site do Cetic.br.
Por Antônia Rangel





