Primeiro dia de negociações entre EUA e Irã tem foco no Líbano
Delegações discutem cessar-fogo no Líbano e Estreito de Ormuz; ameaça de Trump ao Irã provoca protesto e eleva tensão durante encontro na Suíça
O primeiro dia de negociações entre Estados Unidos e Irã na Suíça confirmou que o futuro do acordo assinado na semana passada passa menos pelo programa nuclear iraniano e mais pela guerra no Líbano.
A reunião foi marcada por discussões sobre o cessar-fogo na fronteira libanesa e por uma nova ameaça de Donald Trump contra Teerã, que chegou a provocar um protesto da delegação iraniana.
Apesar da tensão provocada pelas declarações do presidente norte-americano, fontes envolvidas nas conversas afirmaram que houve avanços nas discussões sobre mecanismos para garantir o cessar-fogo no Líbano e manter aberto o Estreito de Ormuz, dois dos temas mais sensíveis do acordo firmado entre Washington e Teerã.
Reunidas no resort Bürgenstock, de propriedade catari, as delegações dos dois países concentraram os debates na situação libanesa, no cumprimento do cessar-fogo previsto pelo memorando assinado na semana passada e na navegação pelo Estreito de Ormuz.
Segundo o jornalista Barak Ravid, do Axios, um diplomata norte-americano afirmou que as conversas tiveram como foco os “mecanismos para evitar confrontos no Líbano e garantir a aplicação do cessar-fogo”.
A mesma fonte declarou que houve “bons avanços” nas discussões relacionadas ao Estreito de Ormuz.
O destaque dado ao Líbano representa uma vitória da posição defendida por Teerã desde a assinatura do acordo. O governo iraniano sustenta que não há como avançar para as negociações sobre programa nuclear, sanções e outros temas de longo prazo enquanto Israel continuar bombardeando território libanês.
A delegação iraniana foi liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo chanceler Abbas Araghchi. Do lado norte-americano participaram o vice-presidente JD Vance, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner. Catar e Paquistão atuaram como mediadores.
Ao longo do dia, o clima das negociações foi afetado por uma nova verborragia e ameaça do presidente Donald Trump.
Embora não participe diretamente das conversas, ele publicou uma mensagem afirmando que o Irã deveria impedir imediatamente que seus “procuradores muito bem pagos no Líbano” continuassem causando problemas, em referência ao Hezbollah.
“Se não fizerem isso, atingiremos o Irã novamente com muita força, como fizemos na semana passada, só que de forma ainda mais dura”, escreveu.
Ghalibaf respondeu pelas redes sociais e rejeitou a pressão norte-americana.
“Não contamos com as ameaças americanas. Eles não pensam que, se essas ameaças tivessem algum efeito, não teriam chegado ao estado de desespero em que se encontram hoje?”, afirmou.
Horas depois, a agência iraniana Tasnim informou que a delegação de Teerã decidiu não retornar a uma nova rodada quadrilateral de conversas após as declarações de Trump. Segundo a publicação, os contatos continuaram por intermédio dos mediadores do Catar e do Paquistão, mas sem uma retomada formal da reunião.
Apesar do episódio, os canais diplomáticos permaneceram abertos.
O contexto no Líbano ajudou a reduzir parte da tensão. O domingo foi descrito por veículos internacionais como o dia mais tranquilo das últimas semanas no país, após a entrada em vigor de uma nova trégua entre Israel e Hezbollah.
Mesmo assim, o governo israelense continua rejeitando uma retirada completa das áreas ocupadas no sul libanês. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou que as forças israelenses permanecerão na chamada zona de segurança e que não há intenção de abandonar posições estratégicas na região.
A permanência das tropas israelenses continua sendo um dos principais pontos de atrito para Teerã.
O memorando assinado entre Estados Unidos e Irã estabelece o fim das operações militares em todas as frentes do conflito, incluindo o Líbano, e o governo iraniano considera que cabe a Washington garantir o cumprimento desse compromisso.
O primeiro dia de negociações terminou sem anúncios concretos, mas deixou claro qual será o principal teste do acordo nas próximas semanas: a capacidade dos Estados Unidos de transformar o cessar-fogo no Líbano em uma realidade duradoura.
Por Lucas Toth





