Violência digital contra mulheres cresce 1.300% em uma década

Dossiê Mulher 2026 revela 16 vítimas por dia no RJ e aponta avanço da misoginia nas redes e reforça o debate sobre regulação

A violência contra as mulheres encontrou nas redes sociais um espaço fértil para se disseminar. Em uma década, os crimes de violência psicológica e moral praticados no ambiente virtual cresceram mais de 1.300% no estado do Rio de Janeiro, passando de 239 vítimas, em 2015, para 5.970 em 2025, uma média de 16 casos por dia. Os dados fazem parte do Dossiê Mulher 2026, divulgado nesta quarta-feira (2) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), que pela primeira vez analisa a relação entre a violência digital e a propagação de discursos misóginos nas plataformas.

Ao longo de 2025, 159.041 meninas e mulheres sofreram algum tipo de violência no estado, o equivalente a cerca de 18 vítimas por hora. O perfil predominante é de mulheres negras (52,3%), solteiras (47,9%) e jovens entre 18 e 29 anos (29,8%).

Entre os crimes praticados no ambiente virtual, a violência psicológica respondeu por 57% dos registros, mantendo-se como a forma mais recorrente pelo quinto ano consecutivo. O levantamento também mostra que um em cada dez descumprimentos de medidas protetivas de urgência ocorreu por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens e até transferências via PIX utilizadas para monitorar, perseguir ou manter contato com as vítimas.

Misoginia digital em expansão

Pela primeira vez, o Dossiê Mulher dedica um capítulo específico à disseminação de discursos de ódio contra mulheres nas redes sociais e ao fortalecimento de comunidades ligadas ao chamado movimento redpill, que propagam ideias de submissão feminina e hostilidade ao feminismo.

Segundo a diretora-presidente do ISP, Bárbara Caballero, a expansão desse tipo de conteúdo preocupa especialmente pelo alcance entre os jovens.

“Infelizmente, a gente vê que o público jovem está sendo muito atraído por esse discurso. Isso é muito triste para a nossa sociedade. A gente está regredindo nesse pensamento misógino, machista e que vai contra todos os ganhos que tivemos recentemente.”

Responsabilização das plataformas

Os dados reforçam um debate que vem ganhando espaço no Congresso Nacional: a responsabilização das plataformas digitais pela circulação e monetização de conteúdos que estimulam a violência contra meninas e mulheres.

Em entrevista ao programa Sala de Imprensa, do SBT News, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que a expansão das comunidades ligadas ao universo redpill exige uma resposta firme do Estado.

“Essa questão das redes redpill atinge adolescentes, crianças e homens adultos. O estímulo à violência contra meninas e mulheres no ambiente digital, sem qualquer controle das plataformas, é gravíssimo.”

A parlamentar também destacou que uma das respostas ao avanço da violência digital foi a sanção, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da lei de sua autoria que aumenta a pena para o crime de violência psicológica contra a mulher quando cometido com o uso de inteligência artificial ou de tecnologias capazes de manipular imagens e voz, como os chamados deepfakes. Para Jandira, no entanto, é preciso avançar em outra frente: a responsabilização das empresas de tecnologia pela disseminação de conteúdos misóginos.

“Queremos aprovar uma legislação que responsabilize e puna devidamente as plataformas que lucram com a desregulação e incentivam essa cultura redpill.”

Violência segue alarmante

Além da violência praticada no ambiente digital, o Dossiê mostra que a violência física permaneceu como a segunda forma mais recorrente de agressão contra mulheres no estado, com 43.307 vítimas em 2025. Em mais da metade dos casos de lesão corporal dolosa, os autores eram companheiros ou ex-companheiros.

O levantamento registra ainda 105 vítimas de feminicídio no Rio de Janeiro em 2025. Em 83,8% dos casos, os crimes ocorreram dentro da residência da vítima, e mais da metade foi cometida por parceiros ou ex-parceiros. Mais de 70% das mulheres assassinadas já haviam sofrido violência doméstica anteriormente, mas não haviam registrado ocorrência.

Na violência sexual, foram contabilizadas 8.681 vítimas. O estupro de vulnerável liderou os registros, com 3.415 casos, sendo que quase metade das vítimas tinha até 11 anos de idade. Em 46,6% das ocorrências, o crime aconteceu dentro de casa e, em mais da metade dos casos, o agressor era conhecido da vítima.

A radiografia apresentada pelo Dossiê Mulher 2026 evidencia que a violência de gênero tem se adaptado às novas tecnologias e ocupado também o ambiente digital. Diante desse cenário, cresce a pressão por medidas capazes de responsabilizar plataformas que permitem a disseminação de conteúdos misóginos e de fortalecer políticas públicas de prevenção e proteção às mulheres.

Por Natália Padalko

Fonte
Vermelho

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
2026 filmleri izle