Ser mãe solo custa caro para mulheres no mercado de trabalho
Dados da FGV mostram salários menores, exclusão profissional e sobrecarga na criação dos filhos
Aos 29 anos, a executiva de contas Adilma Belo tinha outros planos para a vida profissional. Sonhava concluir o curso de comissária de bordo, estudar inglês, viajar e depois seguir carreira na área de turismo.
A maternidade, porém, mudou esse percurso.
A gravidez da primeira filha, Alice — hoje com 13 anos — não havia sido planejada. Pouco depois, os projetos profissionais começaram a ficar para trás. “Ser comissária de bordo exigia disponibilidade para viagens e, com uma filha pequena, eu teria que deixar com alguém. Isso não era possível”, conta.
Adilma conta que o relacionamento também comprometeu sua autonomia. Segundo ela, o genitor não permitia que trabalhasse ou estudasse, o que dificultou sua independência financeira e atrasou sua trajetória profissional. Depois da separação, precisou recomeçar praticamente do zero. Voltou ao mercado de trabalho como vendedora em shopping enquanto criava a filha sozinha. Além da sobrecarga cotidiana pela carga horária intensa, enfrentou o preconceito direcionado às mães no ambiente profissional.
“Já perdi trabalhos e tive que me esforçar o dobro para entrar em uma empresa, porque precisei provar que ser mãe não iria me impedir de exercer a função”, relata.
Os anos seguintes foram marcados por uma tentativa contínua de reconstrução. Adilma concluiu a faculdade de Gestão Comercial, consolidou carreira na área de vendas e conquistou estabilidade financeira. Foi nesse outro momento da vida que nasceu Zion, hoje com 4 anos. Diferentemente da primeira gravidez, Adilma já tinha independência financeira, mais estabilidade emocional e outra percepção sobre os próprios limites dentro de um relacionamento.
“Com o segundo filho eu já tive o direito de escolher não passar mais tempo dentro de um relacionamento ruim pelo fato de ter engravidado. Porque eu me sustento e consigo sustentar meus filhos”, afirma.
Hoje, mora com os filhos em um bairro estruturado mas mantém uma rotina exaustiva para conciliar trabalho, maternidade e cuidados domésticos. A estabilidade financeira construída ao longo dos anos, no entanto, não significou divisão das responsabilidades. O pai do caçula deixou o país e não paga pensão. Toda a criação recai sobre ela. Ainda assim, Adilma afirma que a autonomia conquistada transformou a maneira como ela enxerga essa experiência.
Na primeira maternidade, diz, havia culpa, insegurança e medo. Na segunda, apesar da sobrecarga, houve a possibilidade de escolha. “A 1ª maternidade foi muito mais difícil, pela questão financeira e também pelo julgamento das pessoas. Eu me sentia culpada por ser mãe solo, como se o problema fosse eu”, conta.
A penalidade da maternidade no mercado de trabalho
A trajetória de Adilma ajuda a ilustrar uma realidade apontada por levantamento da pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). O estudo mostra que mães solo recebem, em média, 41% menos do que homens em arranjos familiares equivalentes e seguem mais presentes em ocupações precárias e informais.
Segundo os dados, as mães solo somavam 12,19 milhões no quarto trimestre de 2025 (crescimento de 28% em relação a 2012). Apenas no quarto trimestre de 2024, mulheres chefes de família com filhos e sem cônjuge tiveram rendimento médio de R$ 2.386, enquanto homens na mesma configuração familiar receberam R$ 4.009.
Para a Lau Domingos, Diretora Nacional da UBM e Conselho Nacional da Mulher, os números revelam como a maternidade continua funcionando como mecanismo de desigualdade em uma sociedade patriarcal. “O fato de mães solo ganharem cerca de 40% menos do que pais em famílias com dois cônjuges é um indicador nítido da penalidade da maternidade no mercado de trabalho”, afirma.
Segundo ela, o problema não aparece apenas nos salários menores, mas também nas barreiras impostas às mulheres ao longo da vida profissional. “Muitas mulheres são excluídas de processos seletivos ou promoções pela simples possibilidade de terem filhos, o que empurra as mães solo para ocupações precárias”, destaca.
Lau Domingos afirma ainda que a ausência de políticas públicas de cuidado amplia a vulnerabilidade econômica dessas mulheres e aprofunda desigualdades já existentes. “A ausência de creches em tempo integral e de uma rede pública de apoio transforma o cuidado em uma barreira para o emprego formal, perpetuando o ciclo de pobreza.”
A (insistente) romantização da sobrecarga
Às vésperas do Dia das Mães, Adilma diz que gostaria que a maternidade solo deixasse de ser romantizada. “As pessoas veem e dizem que você é guerreira. Mas a verdade é que a gente faz porque não tem outra opção”, resume. E faz uma pausa antes de completar: “a outra opção seria abandonar. Pesado ouvir uma mãe dizer isso, né? Mas é exatamente isso que muitos pais fazem. Quando um homem abandona, sempre existe uma desculpa pronta para defender”, diz.
Hoje, Adilma trabalha de segunda a sábado em um regime híbrido para conseguir conciliar a rotina profissional com os cuidados dos filhos. A flexibilidade ajuda na dinâmica da casa, mas também impõe limites permanentes aos próprios projetos. “É muito cansativo. Tenho um emprego que me permite conciliar minha agenda com os compromissos de família, porém isso dificulta o alcance das minhas metas. Ser mãe solo é abrir mão de quase tudo que você sonha. Hoje em dia eu nem sei mais o que eu quero, se é realmente o que eu quero ou se eu quero porque talvez seja possível dentro da minha realidade”, afirma.
Apesar disso, Adilma afirma que o maior orgulho da trajetória foi ter conseguido reconstruir a própria vida sem abrir mão da autonomia.
“Ter tido coragem de não me importar mais com o que ninguém pensava foi crucial para que hoje eu fosse independente e pudesse ser uma mãe solo, solteira e livre — e não uma mãe solo casada, o que eu acho muito pior”, finaliza.
Por Natália Padalko





