O que focar na eleição de 2022

As eleições gerais de 2022 vão ocorrer num ambiente de muita polarização e, na dimensão presidencial, terá caráter plebiscitário, com a disputa de legados e de visão de mundo entre o atual presidente da República, representando as forças de extrema-direita, e o ex-presidente Lula, que representa majoritariamente as forças de esquerda/centro-esquerda, ambos com forte apoio popular. Isto requer abordagem diferenciada por parte das candidaturas da esquerda/centro-esquerda para agregar votos, especialmente do centro político, dos jovens, dos evangélicos, dos pobres e das mulheres, que são os públicos que irão definir as eleições no País

Antônio Augusto de Queiroz*

Em ambientes polarizados como o que vivemos não há espaço para a chamada terceira via. Logo a disputa, na eleição presidencial, se dará entre Lula (oposição) e Bolsonaro (situação), e no Congresso Nacional entre 3 grupos de partidos políticos, com vantagens para os 2 primeiros:

1) o governista, liderado pelo Centrão, que reúne neste pleito a direita fisiológica e também a extrema-direita ideológica e antidemocrática;

2) o de oposição programática, liderado pela esquerda e o centro-esquerda; que representa visão social e de defesa da democracia; e

3) o independente ou governista envergonhado, liderado pela terceira via, que representa conjunto difuso de liberais e fisiológicos.

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Do ponto de vista retórico, o primeiro e o segundo grupos serão claros em seus respectivos discursos e o terceiro terá postura dúbia. Nessa perspectiva, o primeiro grupo, liderado pelo Centrão, assumirá a pauta conservadora e de extrema-direita; o segundo, liderado pela esquerda e centro-esquerda, apresentará visão social e desenvolvimentista, e o terceiro grupo, liderado pela terceira via, se dividirá entre as 2 primeiras visões, porém mais próxima da primeira e promoverá a defesa da pauta do mercado para tentar se diferenciar dos 2.

Os governistas, compostos pelas forças conservadoras e à extrema-direita do espectro político, irão explorar valores éticos, morais e religiosos da população, atribuindo à oposição de esquerda a responsabilidade pela degradação das famílias, pela negação da fé-cristã, pela defesa do aborto e da união homoafetiva, pela ausência de probidade no exercício de funções públicas e pela prática e condescendência com a corrupção e os desvios de conduta.

A terceira via, que também representa as forças de mercado, por outro lado, vai condenar a postura antidemocrática da extrema-direita e, somando-se a essa, tentar atribuir à esquerda suposta postura de irresponsabilidade no controle do gasto e da inflação, bem como de intervencionista na economia, acusando-a de ser perdulária do ponto de vista fiscal e de inibir o investimento privado com edição de marcos regulatórios, que supostamente irão interferir na gestão e nos lucros dos negócios privados, além de aumentar a carga tributária.

As forças de esquerda e centro-esquerda, por sua vez, terão duplo desafio. De um lado, promover a defesa do programa de governo, com foco na democracia, na ascensão social e no desenvolvimento econômico, e, de outro, denunciar o caráter autoritário e antidemocrático da extrema-direita e das forças conservadoras, ao mesmo tempo em que buscarão se defender das acusações das forças reacionárias, da terceira via e das forças de mercado.

Portanto, a oposição de esquerda e centro-esquerda têm o desafio não apenas de mostrar as mazelas do governo da extrema-direita e os equívocos dos liberais e fisiológicos, também representados pela terceira via, mas, principalmente, transmitir esperança e confiança ao povo brasileiro. Confiança de que o status quo mudará para melhor e esperança de que o novo governo e a equipe que desse nascerá serão capazes de implementar o programa de governo. Além disso, precisa deixar claro que, diferentemente das forças de extrema-direita e antidemocráticas, não quer assumir o poder para fazer acerto de contas nem perseguir adversário, mas para fortalecer a democracia e criar as condições para a retomada do desenvolvimento econômico e social, com distribuição de renda e inclusão.

Para que seja bem-sucedida, a oposição de esquerda e centro-esquerda precisa ter clareza de que os reacionários e os extremistas de direita contagiaram/envenenaram muita gente com o discurso de ódio e isso não se desfaz rapidamente, porque o fizeram manipulando os sentimentos e valores mais profundos e sagrados das famílias.

Para se ter ideia da dimensão disso, basta dizer que a maioria das pessoas carentes, que são bombardeadas diariamente com acusações de que as esquerdas e o PT são inimigos da família e da religião, têm exatamente na família e na igreja seus pilares fundamentais de relações sociais. Então, para dialogar com esse contingente de eleitores, é necessária abordagem muito cuidadosa e respeitosa, pois se trata de pessoas com enorme assimetria de informação e que estão sendo manipuladas de modo tal que contestar diretamente essas crenças só reforça as atuais convicções.

Assim, a abordagem deve evitar, de um lado, o confronto direto porque esse impacta a autoestima e só reforça as convicções dos que são confrontados, e, de outro, deve priorizar a apresentação de solução para os problemas, que o atual governo não resolveu no presente nem irá resolver no futuro, que afetam negativamente os interesses da maioria deste País, especialmente dos jovens, das mulheres e dos mais pobres.

Nessa perspectiva, a jornalista Maria Cristina Fernandes, em artigo no Valor Econômico de 28/04/22, sob o título “Expor o mau governo para calar o golpismo”, fornece espécie de roteiro para desconstrução do governo Bolsonaro, apontando os principais desacertos dos primeiros 1.460 dias da atual gestão presidencial. Outro jornalista, Bernardo Mello Franco, em texto no jornal O Globo de 1º de maio, sob o título “A tática do abafa”, chama a atenção para a necessidade de debater os temas que importam: carestia, retorno da fome, abandono da juventude nas periferias, além da precarização do trabalho, dentre outros pontos que expressam a realidade que o governo pretende abafar com as manobras diversionistas que promove.

Portanto, aceitar a provocação da extrema-direita, assumindo o debate da pauta proposta por essa, será enorme equívoco da esquerda e centro-esquerda, porque ficará na defensiva e isso só reforça as convicções, tanto de quem apoia o governo, quanto dos que resistem à oposição de esquerda por temer que essa vá governar contra seus princípios e valores.

Nos Estados Unidos, na eleição para a Câmara dos Deputados, ocorrida no meio do mandato do ex-presidente Donald Trump, e posteriormente na tentativa de reeleição dele, quando o clima era muito parecido com este que vivemos no Brasil, os Democratas saíram vitoriosos contra os Republicanos porque adotaram tática de simplesmente ignorar a pauta dos trumpistas, evitando falar sobre os temas por eles defendidos, focando o discurso nos assuntos de interesse da maioria dos norte-americanos, como:

1) plano de saúde, gratuito ou subsidiado, para os mais pobres; 2) respeito e proteção às mulheres, aos negros e aos imigrantes; 3) defesa do emprego e do aumento do valor da hora trabalhada, para os trabalhadores; e 4) redução das dívidas dos estudantes e subsídio estatal à educação dos jovens.

Em conclusão, as forças de esquerda e centro-esquerda precisam:

1) ter clareza da divisão do País; 2) ganhar a eleição para pacificar e reconstruir o País; e 3) para tanto, na campanha eleitoral devem evitar o reducionismo (enquadrar tudo num único slogan) e o sectarismo (achar que somente esse pensamento é correto).

Para alcançar esses objetivos, são necessárias paciência e perseverança, além de discurso e abordagens focados nas reais necessidades do povo, acompanhadas de propostas para solução dos problemas que afligem a maioria.

Devem evitar confrontar a narrativa da extrema-direita, inclusive para não a valorizar, porque essa, além de fugir do debate de política pública, só sabe provocar os instintos mais primitivos das pessoas contra supostos inimigos e acusar terceiros (esquerda, STF e governadores) por impedi-la de governar, como forma de encobrir a incapacidade de resolver os graves problemas do País.

(*) Jornalista, mestre em Políticas Públicas e Governo (FGV), consultor e analista político em Brasília. Foi diretor de Documentação do Diap. É sócio das empresas “Queiroz Assessoria em Relações Institucionais e Governamentais” e “Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas”

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