Ernesto Araújo tira Bolsonaro do foco e atribui a Pazuello a gestão da pandemia

Ex-chanceler afirma que o Ministério das Relações Exteriores agiu de acordo com as demandas do Ministério da Saúde

Durante o seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, no Senado Federal, o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo jogou a responsabilidade das ações da pasta ao Ministério da Saúde e desenhou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no escanteio das decisões importantes no combate à pandemia.

Segundo o ex-chanceler, o Itamaraty não tem condições de avaliar as necessidades de negociações de insumos para vacinas e remédios para o tratamento da covid-19. Portanto, todas as medidas relacionadas ao combate à doença foram realizadas a partir de demandas do Ministério da Saúde, que teve o general Eduardo Pazuello na maior parte do tempo à frente.

“A linha seguida pelo Itamaraty foi sempre a de atuar naquilo que era requerido pelo Ministério da Saúde em termos de negociação com a Covax Facility, por exemplo, e pedir aceleração de insumos”, afirmou o ex-ministro Ernesto Araújo.

Pazuello falará à CPI da Covid nesta quarta-feira (19) tendo em mãos um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que lhe dá o direito de permanecer em silêncio quanto questionado sobre assuntos que digam respeito diretamente à sua pessoa. Na prática, há grandes chances dos assuntos relativos à Pazuello e aqueles relacionados a terceiros serem colocados dentro do mesmo pacote. Caberá aos senadores distingui-los e inquiri-lo quando permitido.

Em outro momento, o ex-chanceler reforçou tal movimento ao afirmar que “houve uma estratégia de obtenção de vacinas no mercado internacional, sempre pelo Ministério da Saúde, e em coordenação com o Itamaraty quando necessário, como do caso da vacina da AstraZeneca, Covax Facility”.

Sobre o movimento do presidente Jair Bolsonaro em relação às demandas ao Ministério das Relações Exteriores, Araújo afirmou que o capitão reformado nunca solicitou diretamente à pasta alguma ação ou missão específica no combate à pandemia, apesar de se reunir com o presidente frequentemente.

Araújo afirmou, inclusive, que o trabalho do Itamaraty, em diferentes momentos, “basicamente” se concentrou em tratativas com apenas quatro países: Índia, China, Reino Unido e Estados Unidos. Até o momento, o Brasil recebeu insumos para a produção de imunizante apenas da China, seja por meio do Instituto Butantan ou do laboratório britânico AstraZeneca.

China

Durante toda a pandemia de covid-19, Jair Bolsonaro e pessoas próximas a ele, como Eduardo Bolsonaro o ex-chanceler fizeram declarações contra a China. Logo no início da pandemia, o ex-ministro chegou escreveu um texto no qual defendeu que há um “plano comunista” em curso que se utiliza da pandemia de covid-19 para implementar o comunismo por meio de organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em resposta, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que o ex-chanceler “escreveu um artigo contra o país”, no qual fala em “comunavírus”.

No entanto, o ex-ministro afirmou que “jamais” promoveu “nenhum atrito com a China, seja antes ou depois da pandemia” e que nenhuma de suas declarações foram “anti-chinesas”. Para ele, “não há nenhum impacto” sobre a atual falta de recebimento de insumos “de algo que não existiu”. E continuou: “Nada que eu tenha feito pode ter levado a qualquer percalço no recebimento de insumos”.

Logo após, Omar Aziz afirmou que Ernesto Araújo estava “faltando com a verdade”. “Afirmar que o senhor nunca fez declarações contra a China, o senhor está faltando com a verdade. Eu peço à vossa excelência que se atenha à verdade. O senhor chegou a bater boca com o embaixador chinês”, alertou Omar Aziz ao ex-ministro Ernesto Araújo.

Em março de 2020, o deputado federal Eduardo Bolsonaro culpou a China pela pandemia de covid-19. “Quem assistiu [à série] Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. A culpa é da China e liberdade seria a solução”.

Em resposta, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, afirmou que “as palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. (…) Além disso, vão ferir a relação amistosa China-Brasil. Precisa assumir todas as suas consequências”.

Diante da situação, Ernesto Araújo apenas comunicou a “insatisfação do governo brasileiro” à Embaixada da China em relação ao comportamento de Wanming. “As críticas do deputado Eduardo Bolsonaro à China, feitas também em postagens ontem à noite, não refletem a posição do governo brasileiro. Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele ofendeu o chefe de Estado chinês”, afirmou Araújo na ocasião.

Ainda neste ano, o presidente Bolsonaro afirmou que “ninguém sabe se [a covid-19] nasceu em um laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é uma guerra química bacteriológica e radiológica. Será que estamos enfrentando uma nova guerra? Qual país que mais cresceu seu PIB?”, disse indiretamente sobre a China.

Mesmo com as declarações explícitas contra a China por parte do presidente Jair e Eduardo Bolsonaro, o ex-ministro afirmou aos senadores da CPI que não vê “nenhuma hostilidade em relação” ao país asiático.

Ainda em relação à China, o chanceler confirmou que o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que a China “não tem dado celeridade” ao processo de recebimento de insumos para a produção de imunizantes” e que “há movimentos fortes no nível diplomático para encontrar onde está essa resistência”. Araújo explicou que os “movimentos fortes” se resumiram apenas ao envio de uma carta ao embaixador da China no Brasil. Para Omar Aziz, Ernesto Araújo falhou no seu papel de diplomacia.

Falta de oxigênio no Amazonas

O ex-chanceler também foi questionado sobre a atuação do Itamaraty na demanda por oxigênio e um avião próprio para o carregamento deste tipo de material. Araújo informou que foi procurado pelo governador do Amazonas, Wilson Lima, com a demanda de um avião e que, em seguida, questionou quais eram as especificações necessárias do avião solicitado.

As especificações, no entanto, nunca foram informadas, de acordo com o ex-chanceler. Para o senador Eduardo Braga (MDB-AM), a ausência de resposta foi um ato “criminoso” que levou à escassez de oxigênio nos hospitais de Manaus, em janeiro de 2021.

Questionado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que é vice-presidente da comissão, se entrou em contato com alguém da Venezuela solicitando ajuda no fornecimento de oxigênio ao Amazonas, o ex-chanceler afirmou que não. Também não fez nenhum contato para agradecer o gás doado pelo país vizinho.

Brasil de Fato

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